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Saúde e segurança do trabalhador em tempos de crise: uma discussão necessária

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Por Luiz Carlos Motta (*)

 

Comemorado no dia 28 de abril, o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho serve como data para a conscientização de toda a população sobre os perigos enfrentados pelos trabalhadores, além de ressaltar a importância de estratégias de prevenção para evitar que os profissionais sofram acidentes ou adoeçam. Nesse ano, a campanha global celebra a data trazendo o tema “Estresse no ambiente de trabalho – um desafio coletivo”, algo que não poderia ser mais oportuno para a categoria comerciária.

Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), as doenças ocupacionais são responsáveis por um número de mortes sete vezes maior do que os acidentes laborais. Dos 2,34 milhões de óbitos anuais, 86% correspondem a casos de doenças ocupacionais, somando 2,02 milhões de mortes todos os anos no mundo. Mais do que a perda dessas vidas, o adoecimento da classe trabalhadora é responsável por gastos globais com tratamento, reabilitação e perda de produtividade. A ONU (Organização das Nações Unidas) aponta que o montante gasto em todo o mundo chega a 2,8 trilhões de dólares todos os anos.

Composta pelos trabalhadores que atuam na linha de frente do comércio, como vendedores, balconistas, estoquistas e outras funções, estes profissionais estão sempre em contato com o público. Por conta disso, acabam tendo que lidar cotidianamente com uma carga importante de estresse.

Enquanto representante dessa que é a maior categoria do Brasil, acho de extremamente importância discutir a saúde e a segurança dos comerciários, atentando para a questão do stress. Isso é ainda mais necessário hoje, principalmente por conta desse momento política e economicamente atribulado pelo qual passamos.

Costumo dizer que o comércio e os comerciários são o melhor parâmetro para analisar a situação do País. Fatos como aumento da inflação e quedas nas vendas ou na intenção de consumo são sentidos imediatamente pela categoria, uma vez que grande parte desses profissionais depende da renda proveniente das comissões para completar seu orçamento. Nesse cenário o stress é ainda maior.

Esses trabalhadores sempre estiveram sujeitos a diversas doenças e acidentes ocupacionais, como LER (lesões por esforços repetitivos), problemas decorrentes de postura inadequada, quedas, cortes, mutilações e varizes, entre outras doenças circulatórias devido a longos períodos em pé. Agora, doenças psiquiátricas como depressão também são cada vez mais comuns no setor devido ao aumento da pressão para atingir metas, exigência de produtividade e até assédio moral por parte de alguns patrões ou supervisores.

Um dos principais papéis das entidades sindicais é exigir das empresas o cumprimento das Normas Regulamentadoras do Ministério do Trabalho e Previdência Social, além de investigar acidentes de trabalho para identificar causas e buscar apoio junto aos órgãos públicos. Para tanto, é preciso investir em ações como o Departamento de Saúde e Segurança do Trabalhador Comerciário, criado para atender os 2,7 milhões de comerciários de São Paulo e ajudar nessa pressão constante. O objetivo é que cada vez mais cláusulas nas convenções coletivas exijam que as empresas apresentem laudos e estudos obrigatórios sobre a saúde e segurança de seus colaboradores aos sindicatos.

A saída para qualquer crise econômica passa por trabalho duro e valorização das classes que movimentam a engrenagem do ciclo de consumo interno, alavancando setores como indústria e serviços. Ao lutarmos pela saúde e segurança dos trabalhadores, desempenhamos um papel fundamental para a retomada do crescimento, com distribuição de renda e qualidade de vida para essa parcela importante da população.

Com essa consciência e muita pressão na defesa dos trabalhadores, enfrentaremos todo e qualquer cenário adverso com cada vez mais motivos para comemoração.

 (*) Luiz Carlos Motta, presidente da Fecomerciários (Federação dos Comerciários do Estado de São Paulo) e UGT-SP (União Geral dos Trabalhadores do Estado de São Paulo)

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