Ainda sem controle, pandemia exige reinvenção dos higienistas

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Com a consolidação e agravamento da pandemia, os cuidados básicos de isolamento social e uso de máscaras – tanto pelo cidadão comum, quanto pelos trabalhadores – não se provaram eficientes para conter o aumento no número de casos. Até o último dia 2 de setembro, conforme dados do jornal “El País”, o Brasil ultrapassava a marca das 122.596 mil mortes e chegava a 3.950.931 infectados pelo coronavírus.

O grande problema é que acabamos chegando a um momento que, sem a previsão correta de uma solução médica (uma vacina com real poder curativo), a pandemia exige ações mais fortes do que os procedimentos básicos. Acredito que em cada área de atuação humana, quer seja no campo da ciência, da gestão pública ou do setor produtivo, é fundamental avançar. E isso vale no setor laboral, onde engenheiros de Segurança do Trabalho e outros profissionais higienistas ocupacionais têm uma importância ainda maior do que em tempos sem uma pandemia.

Esse argumento já é senso comum no exterior, tanto que a revista The Synergist tratou do tema em abril último, reunindo vários especialistas com pontos de vista sobre como tudo deve ser conduzido. Entre os vários conceitos defendidos na publicação estrangeira, gostaria de apresentar alguns que considero essenciais para um debate nacional.

Cynthia Ellwood, higienista industrial chefe na Associates In Occupational + Enviromental Health, levantou uma questão importantíssima para o momento agudo da pandemia que estamos enfrentando: como nós profissionais higienistas podemos ajudar no controle da COVID-19 em hospitais? É bastante óbvio que médicos, enfermeiros e demais trabalhadores da saúde são a linha de frente no combate a qualquer doença. Mas a força do coronavírus está sendo devastadora também entre esses valorosos profissionais. Na semana de 16 a 22 de agosto, o Boletim Epidemiológico Especial 28, divulgado pelo Ministério da Saúde relatando que, até aquela data, 92.324 auxiliares de enfermagem, 39.058 enfermeiros, 28.596 médicos, 13.189 agentes de saúde e 11.689 recepcionistas em unidades de saúde haviam sido contaminados, citando somente algumas profissões do setor.

O contágio se dá no contato com os pacientes, através da saliva ou partículas transmitidas pelo ar, mesmo que as pessoas diagnosticadas com doenças contagiosas tenham sido alocadas em áreas com medidas rígidas de isolamento. Ao buscar mais informações relativas aos riscos de contaminação, encontrei referências indicando que tanto a manipulação de instrumentos médicos e o contato com superfícies que naturalmente, independente de pandemia, já têm um alto potencial de estarem contaminados. Isso, a meu ver, eleva o potencial de perigo para os profissionais da medicina. Ou seja, o uso de toucas e luvas é insuficiente.

De acordo com Cynthia Elwood, os pacientes “podem gerar gotículas infecciosas ao tossir, espirrar, falar ou durante procedimentos como a broncoscopia”. Ao menos o uso de máscaras, a proteção para os olhos e luvas e gorros descartáveis para os profissionais, bem como salas para pacientes com condições de pressão neutra são elementos básicos indicados para tentar impedir a contaminação. Cabe a nós engenheiros de segurança no trabalho fiscalizarmos estas ações e reforçar constantemente a necessidade do emprego de tais medidas. É um ponto chave para o fortalecimento de ações preventivas eficientes e urgentes. Porém, acompanhando o setor nacional de segurança no trabalho, percebo um movimento insuficiente no segmento hospitalar em termos de investimentos no treinamento de pessoal. Uma periodicidade deste tipo de ação precisa ser adotada, mantida e revisada para aprimoramento não só agora durante a pandemia, mas de modo permanente.

Concordo totalmente com Ellwood sobre a relevância destacada do uso de máscaras N-95 ou de eficiência superior. Porém, o mundo ideal nem sempre é viável, ainda mais em uma condição para a qual, obviamente, o Brasil não estava preparado. Este é mais um momento em que os higienistas industriais têm como colaborar na indicação de rotinas de trabalho preventivo a serem tomadas.

Descontaminação

Rob Strode, diretor técnico da Industrial Hygiene Services at Chemistry & Industrial Hygiene, Inc., e Christine Knezevich, higienista industrial sênior em engenharia ambiental na Wright Patterson, contribuíram para a matéria da The Synergist com um tópico que trata sobre quais modos os equipamentos de proteção respiratória (EPR) descartáveis podem ser conservados durante uma pandemia.

Os dois especialistas indicam os EPRs como o topo da hierarquia de controles de segurança, como fatores que “garantem aos trabalhadores de saúde uma proteção adicional quando estão próximos de indivíduos com doenças transmissíveis”. Mas, alertam, a pandemia causou uma situação assustadora em todo o mundo: a escassez de respiradores N95, que é o modelo mais popular da categoria e recomendando em procedimentos produtores de aerossóis, como traqueostomia, intubação traqueal, ressuscitação cardiopulmonar, entre outras. Se não fosse suficiente a escassez deste modelo, “os respiradores elastoméricos reutilizáveis purificadores de ar, como P100, N100 ou N99, que podem ser alternativas ao N95, podem não estar disponíveis ou com preços acessíveis”, revelam Strode e Kzenevich.

De acordo com eles, pesquisas sobre descontaminação e reuso de respiradores descartáveis, especificamente os respiradores de peça facial de filtragem N95, começaram a ser feitas, porém com resultados pouco animadores.

No Brasil a situação é semelhante. No último mês de março, pesquisa elaborada pelo Núcleo de Evidência de Mato Grosso do Sul, da Universidade Federal daquele estado, constatou que a situação realmente é muito complicada. A equipe formada pelos pesquisadores Ana Tereza Gomes Guerrero (FIOCRUZ-MS), Andéia Insabralde de Queiros Cardoso (INISA-UFMS), Andressa de Lucca Bento, Grabriel Valdez e Saú Pereira Tavares de Oliveira (todos da NEvMS-SESAU) e Livia Fernanda Probst (FAODO-UFMS) concluiu que, até aquele momento, não era possível indicar métodos “seguros e eficazes de descontaminação para máscaras de proteção respiratória modelo N95”. Apesar de alguns resultados “aparentemente promissores”, atestaram, há ainda muitas “ressalvas para uma recomendação conclusiva”.

Strode e Kzenevich citaram à The Synergist exemplos de tratamentos químicos com peróxido de hidrogênio vaporizado, esterilização por óxido de etileno, ozônio e hipoclorito, além de tratamentos físicos como irradiação ultravioleta germicida ultravioleta e fornos de micro-ondas convencionais. Mas também deixaram claro que a eficácia durante os testes pode não ter a mesma efetividade em condições reais. Segundo eles, dependendo do método empregado, “a descontaminação pode resultar em uma perda de qualidade na performance do respirador”.

Mesmo com incertezas sobre a descontaminação e reutilização, não vejo alternativa a não ser colocar em prática essas ações. Tentar preservar a vida dos profissionais de saúde é imperativo para termos condições de atender as pessoas contaminadas pelo novo coronavírus. Mas, apesar disso, há outro aspecto que exige ações assertivas por parte dos empregadores. Falta o estabelecimento de uma regra rígida sobre a troca dos EPRs.

Decisões difíceis

Comento a seguir avaliação de cenário elaborada por Stephen Derman, presidente e CEO da MediSHARE Enviromental Health & Safety Services. Citando um estudo da Academia Nacional de Medicina dos Estados Unidos, ele descreveu um cenário impactante. “Quem está cuidando da situação pode ter que decidir quais pacientes estarão aptos a acessar equipamentos médicos, remédios, testes e até vagas em UTIs. E quem toma essas decisões pode sim sofrer com estresse físico e psicológico, tornando-se incapaz de continuar seu trabalho. A falta de suprimentos e de equipamento protetivo como respiradores e ventiladores, além da falta de pessoal provocada pelo coronavírus, vão exigir que essas pessoas tomem decisões difíceis para salvar a vida de alguns pacientes com ações adequadas ou meramente paliativas para outros. Essa crise é praticada durante situações de guerra e, infelizmente, pode se tornar um padrão em muitos hospitais”, argumentou. De acordo com informações publicadas pela imprensa, tal realidade já ocorreu em várias cidades do Brasil.

Derman vê nessa configuração dramática gerada por uma pandemia, a necessária presença de profissionais de segurança no trabalho “para muitas funções fora do normal” em suas áreas de atuação. Algumas destas novas facetas esperadas, na opinião dele, estão o “planejamento e logística para emergência e desastres, guiar o uso e reuso de equipamentos, desenvolver e supervisionar métodos de descontaminação, identificar prioridades mais e menos importantes para o staff e para os pacientes, além de entender e ajudar com cuidados psicológicos imediatos para trabalhadores e gestores estressados pelo excesso de horas de trabalho”.

Penso do mesmo modo. Sobre isso, cito Eric Esswein, CEO da Emeritus Health And Safety, que vê na atual pandemia a necessidade de adaptação para engenheiros de segurança e para os profissionais de saúde. Todos precisamos realizar as mesmas práticas empregadas durante o surto de SARS em 2003 e do Ebola entre 2014 e 2016.

Em momentos tão extremos não basta apenas ter profissionalismo. É fundamental a humildade para reconhecer limitações e a hora de pedir ajuda a outros colegas. De acordo com Esswein, “independentemente do seu local de trabalho, durante esta pandemia, você será solicitado (e incumbido) de resolver problemas fora do escopo de suas tarefas normais, em tempo limitado e sob restrições econômicas e logísticas. Você precisará separar os problemas que podem ser resolvidos, os que exigem um esforço de equipe (a maioria) e os que exigem uma rápida elevação para a alta gerência (sem parecer que estão falhando)”.

A lista de sugestões continua: “você precisará saber como e onde procurar orientações e soluções desenvolvidas por outras pessoas, dentro ou fora da organização, e avaliar a veracidade delas. Você precisará priorizar as questões mais irritantes, como avaliar o impacto sobre os trabalhadores, equilibrando os interesses da sua organização com os recursos disponíveis”.

Da minha parte, considero ainda que as pessoas que precisam gerenciar o combate à pandemia têm que, obrigatoriamente, se reinventar e se adaptar às incertezas, às alterações de comportamento e conduta que colegas de equipe podem manifestar nestes dias em que a mídia – cumprindo sua legítima obrigação de informar – dedica tantos minutos à contagem de infectados e mortos. Não vejo como mensurar se este desafio é o maior que já tivemos até hoje. Mas concluo que todos devemos encará-lo sem medo, com sagacidade e sabedoria.

 

Cristiano Cecatto
Engenheiro Mecânico e de Segurança no Trabalho, Consultor e diretor da SSO

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